No dia 12/03/2007 tivemos uma aula muitíssimo interessante com a Rosane Almeida no Teatro Escola Brincante. Foi um encontro de extrema importância pra mim, por que conversamos, ou melhor, ouvimos atentamente e com grande interesse a Rosane falar sobre o por que da existência daquele grupo, daquela escola, daquele curso, e fiquei muito surpreso pelas palavras dela.
Antes de iniciarmos a conversa, assistimos um vídeo da série Danças Brasileiras sobre 2 folguedos populares, o “Reizado” e o “Cavalo Marinho”.
Iniciamos a conversa após o vídeo.
(Infelizmente não gravei perfeitamente as palavras dela, então vou dizer daqui pra frente o que lembro e entendi daquela conversa.)
A Rosane começou falando desses reizados, dizendo que essas manifestações ocorrem nesta época que vai mais ou menos do Natal (25/12) até o dia de Reis (06/01), ou seja, um período de aproximadamente 15 dias. Na verdade, a grande maioria dessas manifestações ocorrem em decorrência (supostamente) dessas festas colocadas no calendário cristão e há registro dessas manifestações com mais de 500 anos atrás, ou seja, são procedimentos trazidos pelos europeus para o Brasil.
O que aconteceu é que, devido à posição geográfica de cada povo, essas manifestações tomaram algumas formas. Por exemplo, em regiões onde a pecuária ou o “boi” era mais ativo, houve a incorporação do boi nessas manifestações e, em alguns casos, o boi se tornou o personagem principal da festa, com direito a morte e ressureição do mesmo. Outras regiões tiveram outros desdobramentos. No Sul por exemplo, havia mais folguedos em salões, provavelmente por influencia do clima, e assim surgiram outros tipos de reizados. Em regiões canavieiras, outros tipos de folguedos também surgiram.
Em Pernambuco, por algum motivo X ou Y (alguém pode me ajudar a completar isso?), possuia a maioria dessas variantes: os canaviais, os bois, salões, etc, e lá surgiu por exemplo o Cavalo-marinho, que é uma mistura de teatro, danças, brincadeiras e música.
Mas uma das coisas que a Rosane enfatizou é que, a cultura popular brasileira, é fruto da essência do homem e, por isso, é uma forma de conectar o homem com sua essência, com sua origem. Ela aprofundou a conversa dizendo que essas manifestações cristãs não tiveram sua origem na igreja. A humanidade sempre celebrou seus períodos de colheita, os solstícios e outros eventos. A igreja adaptou seu calendário e sua forma à essas celebrações já existentes, talvez como forma de obter controle sobre as pessoas à longo prazo. Sendo assim, se fizermos uma regressão, perceberemos que as danças e manifestações que estamos cultivando hoje, são as mesmas manifestações que aconteciam na chegada dos europeus ao Brasil, são as mesmas manifestações que ocorriam nas festas das colheitas.
O que ocorreu foi uma adaptação dos brincantes para representar as novas imagens criadas pela humanidade como reis, rainhas, reinados, soldados (personagem do cavalo marinho), etc. Mas a essência é a mesma, a celabração é uma necessidade talvez intrinsica do ser humano.
A conversa aprofundou mais ainda quando a Rosane falou do motivo pelo qual o ser humano (os da cidade) tem essa imensa dificuldade de achar sua função, sua motivação. O ser humano atual recebe as imagens em sua mente, através de propagandas, através de músicas comerciais, e por necessidade da natureza do homem, ele tem que viver aquelas imagens da qual ela cultiva. Assim, o corpo, os atos do ser e o pensamento dele se molda à essas imagens. Antigamente não era assim… A humanidade sempre criou imagens a partir de sua vivência e de seus sonhos, ou seja, de dentro para fora. Os portugueses sonharam com outras terras antes de navegar. Agora, as fantasias colocadas pela mídia faz com que as pessoas desejem viver as imagens fantasiosas que são despejadas em nossas mentes, através de nossos sentidos e nosso corpo tende a acompanhar. Sendo assim, houve uma espécie de inversão da vida, que está ocorrendo de fora para dentro.
Daí o assunto rolou… me lembrei em silêncio do filme “Quem Somos Nós?“, da parte em que se fala dos peptídeos, alias, de várias partes. O tema foi aprofundando e quando percebi estavamos ouvindo a Rosane falar de religação (ou religião) através da dança. Falou de como o camarada que está dançando cavalo marinho entra em transe… comparou esse transe como equivalente ao transe que um iogue entra.
E nesse ponto da conversa entendi finalmente o que me interessa nessa história de Dança Populares Brasileiras. Nela existem todos os elementos para nos reencontrarmos com nossa essência, com a criança, com a pureza interior, com a consciência.